domingo, 15 de junho de 2008

Intoxicações Místicas

Sheik Al Kaparra

Hoje é mais fácil intoxicar-se com leituras esotéricas do que com carne de porco. O modismo da leitura de textos ocultos espalhou-se pelos quatro cantos do globo e certas lombadas provocativas já podem ser vistas nas melhores estantes entre livros de culinária ou de protestos políticos.
Podemos vislumbrar, com o canto do olho, em certas estantes, um manual para o desenvolvimento de Kundalini roçando capa com o Kama-Sutra. Mais adiante, numa esquina da prateleira, deparamos com um livro que cuida do preparo de drinques quase abraçado a um compêndio sobre todos os tipos de abstinência. Em resumo, é fácil encontrar Deus e o Diabo na mesma estante e, certamente, no coração do leitor.
O Esoterismo e o Espiritualismo são, hoje, um adorno. São coisa muita parecida com as sessões de mesa no início do século XX, quando os "raps" de Hydesville, trazidos a lume pelas irmãs Fox, trouxeram ao mundo as mesas falantes que se converteram no melhor passatempo místico para os fins de semana. A mesa falante substituiu até mesmo o jogo de cartas e ainda hoje é praticado pelos adeptos do tabuleiro Ouija ou do copo d´água que forma frases com as letras do alfabeto.
As pessoas nunca deixaram de ser curiosas e atrevidas. Diante de um mistério logo querem resolvê-lo com suas argúcias. E, conforme o grau de sensibilidade, logo se sentem providas de poderes sobrenaturais, o que não poucas vezes engrossa a horda dos charlatães. Há sempre muita pressa nessas pessoas. Pressa de aprender, pressa de se mostrar, pressa de sair por aí fazendo prodígios ou curando doenças.
Suas mentes viram a privada final de tudo que encontram escrito e que tem uma capa bonita. Dentro dessas mentes inquietas ocorre a mais bizarra das combinações químicas e os textos vão se misturando como frutas variadas dentro de um liqüidificador implacável que tudo esfacela e reduz a uma poção de infernais efeitos lesivos. As almas que se inclinam pela poesia começam a introduzir coisas esotéricas em seus poemas e se convertem em dissertadores de coisa nenhuma. Fabricam sonoridades tolas que só encantam aos vazios. Nada do que escrevem se coaduna com a dureza do mundo e da vida. Nas rodas e nos encontros falam como intoxicados e deles sentem muita pena os que, ao invés de sonhar, vivem de olhos muito abertos para o mundo.
O leitor, certamente, já deve ter encontrado essas criaturas "etéreas" ou "diáfanas" que tanto mal fazem ao intelecto. Elas vivem no mundo, mas não enxergam o mundo direito. Fabricam, com seus poemas ou colocações, um mundo que não existe nem poderia existir, um mundo de mentira de faz-de-conta. Ao saberem que existem certos elementais começam a ver ninfas nos lagos, ondinas no mar, faunos nos bosques e gnomos nas grutas. Com o passar do tempo logo arranjam uma fada madrinha, que serve de babá para os seus desejos mais íntimos.
Uma outra facção sobe ao Céu e lá traz certos anjos com os quais passa a ter uma bizarra intimidade. Em seu delírio divino logo percebem o anjo a se manifestar e a dar sugestões para isto e aquilo. As casas de perfumes, óleos aromáticos e defumadores agradecem! Agradecem e fomentam o delírio! "Tome este Banho de Descarga Angélico para limpar a sua aura!", aconselha a matreira vendedora. "Já experimentou este perfume de atração?" pergunta a companheira de olho na comissão. E logo os olhos da pessoa iludida caem em cima de uma estátua que é a cara do anjo já visto! "Foi ele que me mostrou!", pensa ela, arrebatada de emoção. E compra a estátua, que passará a ser a corporificação do seu anjo!
Uma outra criatura alucinada por leituras frouxas vê nas pedras e nos cristais o segredo de tudo! Compra uma bacia de ágata ou reserva um cantinho da casa para colecionar pedras coloridas sem valor comercial algum, que elas banham em água pura e borrifam de perfumes. As almas mais exaltadas vão buscar 7 tipos de água para essa infusão: água do mar, água da bica, água mineral, água do poço, água da lagoa, água do lago, do rio e da cachoeira. E lá se vai ela, de mato em mato, de bosque em bosque, à procura dessas sacrossantas águas que, no seu entender, alimentam os cristais, saciam as pedras e prometem toda a sorte de benesses...
Uma outra criatura acha interessantíssimo domar a serpente kundalínica cujo ninho ela aprendeu estar entre as pernas. E começa a mexer onde não deve, exatamente como a criança que começa a brincar com a eletricidade até levar um choque ou decide fazer uma bomba igual à que viu num filme. Uma outra quer aprender a dar passes e uma outra ainda acha que é médium de Cristo!
A irresponsabilidade mística pode assumir várias formas e trazer os mais desastrosos resultados. Muitas vezes, uma pessoa, querendo aparecer, acaba fazendo com que as outras sintam desejo que ela desapareça pelos muitos males que já causou.
No campo da assim chamada reencarnação o panorama não é melhor. Ao lado dos médiuns que dizem incorporar João Batista ou José de Arimatéia, pululam todos aqueles outros que se acreditam reencarnações de Cleópatra ou do Rei Artur. A mulher que se tornou cartomante e que até fez curso de correspondência para ler o Tarô ou o baralho comum afirma que na outra vida foi uma cigana de grande poder mágico e que, muitos milênios antes, foi sacerdotisa de um templo egípcio dedicado a Amon-Ra. Ela não apenas diz isso. Acredita que é realmente! E vende sua história aos papalvos...
A História do Charlatanismo é mais longa e mais rica do que se pensa. Grande parte dos mitos que a compõem acha origem nas leituras desordenadas que foram feitas, ficando o resto por conta de um certo auto-hipnotismo um tanto histérico. Basta fazer algumas perguntas-chave a essas pessoas e logo elas se traem, revelando sua melancólica vacuidade. Elas não conseguem passar nos testes. Sua reprovação fica logo evidente e o melhor que se faz nessas horas é... sair correndo dali enquanto é tempo!
O mais triste é o fenômeno da contaminação. Os atrevidos acabam criando outros atrevidos e os irresponsáveis outros irresponsáveis que passam a ler pela sua cartilha. E logo a horda de tolos fica tão grande quanto a peregrinação a Lourdes ou a fila do INSS.
Assistir a um papo dessa gente maluca só não faz rir mais porque acode-nos ao espírito a lesão moral que isso pode causar. A desinformação é a mãe de muitos males e de muitos acidentes.
Ouvir o galo cantar e não saber onde plasma um "mapa da mina" falso e perigoso. É o mesmo que aprender a tocar piano errado e sair por aí dando recitais. Aos ignorantes a execução poderá parecer primorosa, mas aos que têm ouvidos educados ou alguma formação musical essa execução vai ser um desastre sonoro bastante incômodo.
As leituras deviam ser dirigidas por alguém mais informado. Não se pode, por exemplo, recomendar um livro que ensina a mexer com Kundalini a um principiante das artes esotéricas.
Estudar Magia como quem lê um romance policial é mais perigoso do que tomar um remédio sem receita.
A curiosidade do leitor pode conduzi-lo à beira de um abismo que ele nem sequer suspeita. E outros curiosos se podem juntar a ele para fazer experiências, tal como fazem certos estudantes de Química que, apaixonados pelas reações, decidem montar um pequeno laboratório em casa, acabando por provocar incêndios ou explosões. Os papos travados pelos principiantes do Esoterismo ou do Espiritualismo têm um certo sabor de ingenuidade. É quase uma conversa de crianças ou uma bravata de adolescentes entusiasmados por quase nada. Formam-se, então, os times que querem sair do corpo para viajar no Astral e que até marcam encontro por lá, como se isso fosse tão simples como ir ao cinema e encontrar os colegas lá dentro. Os mais atrevidos querem sair do corpo para invadir o quarto da namorada ou vigiar a amante depois que a deixam na porta de casa. Os dominados pelo sexo querem ver mulheres mudando a roupa sem serem vistos.
Fora da viagem astral, há os que querem influenciar os outros com a força do pensamento ou que desejam fazer formidáveis feitiços. Os mais exagerados e com alma teatral mandam fazer roupas especiais, em geral grandes camisolões de mangas largas, onde pregam estrelas, meias-luas e cometas dourados. Se têm queda pela bruxaria decoram a casa com bolas de cristal, pequenos feixes de vassourinhas enfeitadas de fitas ou, mesmo, ostentam uma coruja empalhada na sala de estar.
Criam também efeitos luminosos e atraentes jogos de luzes e sombras. Na porta ou no jardim, natural ou improvisado, têm sempre um gnomo amigo, que lhes serve de fiel criado e que lhes cochicha os mais caros segredos do universo. Essas pessoas são freqüentemente visitadas por fadas ou elfos que sempre entram na casa escondidos numa lufada de vento ou descem pela chaminé antecipando Papai Noel.
A Natureza para essas almas cândidas é um repositório de beleza e graciosidade. Nessa Natureza, que essas pessoas chamam de Grande Mãe, só delicadas borboletas e graciosos colibris esvoaçam por céus invariavelmente azuis e límpidos. São adoradoras de riachos tranqüilos, de majestosas cachoeiras e gostam muito de dizer que o vento penteia com redobrado amor a copa das árvores, compondo poemas sussurrantes na delicadeza das folhas. Os mais assanhados vêem faunos tomando banho de cuia, ao mesmo tempo que bisbilhotam a inocente nudez das ninfas. A Mãe d´Água se espreguiça no topo de uma vitória-régia e o sol, brincando de pintor, traça graciosos arco-íris no suave contorno das diminutas pegadas que esses minúsculos seres vão deixando sobre as alvas margens do rio.
A intoxicação está, portanto, completa! Poesia e misticismo barato se mesclam para formar uma espumante poção de ilusões coloridas. Perdidos nessa poesia toda, que mama nos fartos seios da Mãe Natureza com a mesma sofreguidão de um mártire de Bangladesh, esses intoxicados não percebem o cadáver que apodrece na moita da esquerda, nem a moça que, a 10 metros dali, está sendo possuída pelo seu Príncipe Encantado. Essas pessoas só vão sentir que foram miseravelmente picadas por famintos mosquitos ao chegarem em casa e notarem as pernas empoladas. Nenhum desses sonhadores viu o desespero do canário que teve seus filhos devorados por um gambá ou que, chegado ao ninho, só encontrou palhas e cascas de ovo.
Tampouco esses olhos distraídos foram capazes de perceber que naquele mesmo instante um grupo de excursionistas perdia-se na floresta e chorava a morte do companheiro que caiu no abismo. Quando se está intoxicado não se vê mais nada senão o delírio do momento mentirosamente poético ou episodicamente divino de exaltação. No útero da Mãe Natureza não existem apenas favos de mel, perfume de flores ou graciosas lendas de gente invisível. Esse útero, mesmo sob o pretexto de preservar as espécies, permite as mais hediondas carnificinas e os mais cruéis sacrifícios.
Por certo, essa gente leu muita literatura cor-de-rosa, mas esqueceu ou não foi convidado a assistir aos documentários que nos mostram a cruel vida que se desenrola no assim chamado mundo natural. Não basta ler ELIPHAS LEVI, PAPUS ou JORGE ADOUM para mergulhar nos Grandes Mistérios do Esoterismo. Não basta ficar curioso com os efeitos da Chama Violeta ou sentir arrepios místicos todas as vezes que se pronuncia o nome do Governo Oculto do Mundo ou da misteriosa Shamballa. Não adianta conhecer quase tudo sobre os 7 Raios ou saber de cor os nomes de alguns Mestres Ascencionados. Tampouco vale coisa alguma decorar pentáculos e pantáculos, ter a receita de feitura de talismãs ou possuir uma biblioteca inteira de obras ocultas, que às vezes foram compradas a metro.
O Esoterismo nasce no coração e não na emoção. No seu mistério mais profundo, o Esoterismo funciona como uma mão amiga, ausente de pressas ou precipitações, que nos vai levando docemente como a mãe dedicada leva o próprio filho ao Caminho do Bem. De "esotéricos" farristas o mundo já está cheio demais. O Esoterismo não precisa de gente que medita às 18 horas, mas, depois das 22 sai pela madrugada para caçar sexo e acariciar beiras de copo até o raiar do dia. O Esoterismo não quer simpatizantes que fumam maconha ou aspiram cocaína, queimam crack ou sorvem destilados com comprimidos. O Esoterismo alija de si os que penduram no pescoço símbolos que não sabem respeitar ou que sequer suspeitam para que servem. E o faz porque sabe que pior do que uma mentira é uma verdade mal compreendida. Sabe que esses abusos e essas distorções irão gerar efeitos muito sérios mais tarde e que o sorriso alegre de hoje poderá ser, depois que a madrugada passar, o estertor da dor que a vida irá desenhar amanhã no rosto do irresponsável.
Que os intoxicados se desintoxiquem em tempo de evitar um mal maior e percebam logo que o Mundo Espiritual, com todos os seus departamentos, é muito mais simples do que suas complexas e absurdas fantasias.
Para a festa do Misticismo é preciso estar preparado. Preparemo-nos, então, com as vestes da simplicidade e os humildes adereços do Nada. Não ganha iluminação o narciso que se enfeita de balangandãs, que chacoalha pulseiras ou se verga sob o peso de mil colares. Não se torna filho da Luz o que exibe misteriosos títulos em sua estante de livros ou que, como bom ator ou atriz, recita frases feitas que decorou em livros e que até tem o atrevimento de dizer que são suas.
O esotérico perfeito caminha nu em direção ao seu Criador. Passa pelo seu Mestre, deixa-o para trás e vai despejando todas as ilusões e ruídos do mundo pela beira da estrada. Nada mais o detém ou atrasa. Conhece o poder da tentação e vira-lhe as costas. Não se deixa mais iludir pelas miçangas de Maya. Fica a meio caminho da poesia e da realidade. Sabe que ambas têm o seu lugar no espaço, mas que não pender para nenhum dos lados sob pena de ser enganado pelos sentidos ou pela emoção.
E, então, mesmo só ou rejeitado pelos seus pares, ele mergulha no imponderável com um sorriso mais enigmático do que o da Mona Lisa e com uma serenidade muito maior do que a se revela no colosso pétreo da Esfinge.

2 comentários:

António Rosa disse...

Um artigo impressionante, de excelente. Plutão em Sagitário....

Lilian Sotin disse...

Até que enfim...